A tese

Um bom roteiro tem duas páginas. A página um é a espinha geográfica. A página dois são os pontos de ancoragem. O resto é pesquisa — e pesquisa não é um plano.

01 — AS DUAS PÁGINAS

O que cada página está fazendo.

A página um é a espinha — três colunas, uma linha por local: cidade, noites, transporte de saída. Sem descrições. Sem linhas aspiracionais sobre como a manhã em Lisboa se sentirá. A página um diz onde o corpo estará a cada dia, e como ele chegará ao próximo lugar. Esse é todo o trabalho.

A página dois são os pontos de ancoragem. Qualquer coisa com um horário fixo e um número de confirmação. A reserva feita há quatro meses. O ingresso com hora marcada. A única experiência por parada que justifica a parada. Os pontos de ancoragem são operacionais. A viagem se flexiona em torno deles; eles não se flexionam.

Página um

A espinha

Cidade. Noites. Transporte de saída. Três colunas, sem comentários. Se não couber em fonte 11, a viagem está sobrecarregada.

Página dois

Os pontos de ancoragem

Reservas com números de confirmação. A única experiência imperdível por cidade. Apenas operacional. Sem acréscimo de lista de desejos.

Todo o resto

Notas de campo

Restaurantes, bairros, museus — documento separado, aberto apenas quando você está na cidade. Nunca antes.

Caderno · Duas páginas · O formato
02 — O ANTI-PADRÃO

O Google Docs com doze abas não é um plano.

É pesquisa. Pesquisa é coleta; planejamento é compromisso. O documento maximalista é o que você constrói quando ainda não está pronto para decidir — as cidades ainda são negociáveis, as noites por parada ainda estão flutuando, os bilhetes estão não comprados. O documento cresce porque as decisões não foram tomadas. Parece preparação. Não é.

A regra de duas páginas força as decisões. Para preencher a página um, você deve escolher quais cidades estão dentro e quais estão fora. Para preencher a página dois, você deve transformar intenções em reservas. A lacuna entre sentir-se preparado e estar preparado é exatamente a lacuna entre o documento de doze abas e o roteiro de duas páginas. Você pode ficar do lado errado dessa lacuna por anos (algumas pessoas o fazem). Duas páginas é o movimento que o leva através dela.

03 — O MÉTODO

Como realmente escrever.

  1. 01

    Abra um documento e defina a contagem de páginas para duas. A restrição é todo o mecanismo — não deixe que ele cresça.

  2. 02

    Construa a página um como uma tabela de três colunas: cidade, noites, transporte de saída. Uma linha por local. Sem prosa.

  3. 03

    Construa a página dois como a lista de pontos de ancoragem — cada número de confirmação, cada horário fixo, a única experiência imperdível por cidade.

  4. 04

    Imprima ambas. Leia-as juntas. Se a página dois exige que você esteja em Florença em um dia de Roma, corrija agora, não na viagem.

  5. 05

    Mova todo o resto — restaurantes, bairros, artigos que você salvou — para um arquivo separado de notas de campo.

  6. 06

    Quando as duas páginas se reconciliarem, o planejamento está feito. A hora marginal após isso é consumo, não preparação. Feche o laptop.

04 — FAQ

Seis perguntas antes de escrever o seu.

Q01

Por que duas páginas e não uma?

Uma página colapsa o onde e o quê no mesmo plano, que é como roteiros de uma página se tornam quadros de inspiração aspiracionais. Duas páginas forçam uma separação: a espinha, os pontos de ancoragem. A restrição é o ponto.

Q02

O que exatamente vai na página um?

Cidade, noites, transporte de saída. Três colunas, uma linha por local. Sem comentários, sem descrições. Se uma linha precisa de explicação, a linha está errada.

Q03

O que exatamente vai na página dois?

Os pontos de ancoragem. Reservas com números de confirmação, ingressos com horário fixo, a única experiência por cidade que justifica a parada. É isso. Notas estéticas não pertencem aqui.

Q04

E o Google Docs com doze abas?

É pesquisa, não um roteiro. O documento maximalista é o que você constrói antes de estar pronto para decidir. Mantenha-o; apenas não o confunda com um plano.

Q05

A regra funciona para viagens longas e multi-países?

Sim — recursivamente. Duas páginas para a espinha mestre (regiões, não cidades). Duas páginas por região como um sub-roteiro. Mantidos separados, abertos em sequência.

Q06

Onde vão os restaurantes e bairros?

Um documento separado de notas de campo, aberto apenas quando você estiver na cidade. Misturá-los com o roteiro é como os roteiros incham para catorze páginas e param de ser úteis.

05 — LEIA A SEGUIR

Três da mesa de planejamento.